Nawfed Pwer

"Nós somos a totalidade nove vezes."

Bedd Gelert

A obra de arte acima se chama Who Knoweth the Spirit of Man (Aquele que conhece o espírito do homem…), do pintor inglês Byam Shaw, ano de 1901. Representa o momento singelo em que o cão Gelert, antes de sua derradeira morte, olha com toda sua fidelidade e decoro para o rei galês Llywelyn Fawr, que o havia ferido por um triste engano. Gelert defendeu lealmente o herdeiro do rei do ataque de um lobo, contudo Llywelyn Fawr desesperado iludiu-se pelo sangue vivo que escorria por todo castelo, acreditando que o cão havia devorado seu querido filho, desferindo um golpe mortal no cão. O grito do cão despertou a criança que não tinha sofrido nenhum dano, fazendo Llywelyn Fawr ver o lobo morto e seu equívoco por ter matado Gelert. A tristeza profunda dessa história nos faz refletir até onde se direciona a lealdade e inocência de um cão.

Segundo o Oráculo Animal dos Druidas, escrito e ilustrado por Philip e Stephanie Carr-Gomm, o antigo espírito do cão na mitologia celta trabalha o arquétipo da fidelidade como um valor primordial, a proteção como uma forma de demostrar seu afeto e a orientação ao Outro Mundo, já que os cães são fiéis companheiros que nos mostram o caminho para encontrar a terra dos ancestrais depois da morte. A confiança é a força mais bela que os cães podem ensinar como professores aos homens. Até que ponto valorizamos aqueles que amamos, como nossos familiares, amigos, amantes e irmãos ao nosso redor? Até que ponto valorizamos o altruísmo em nós mesmos para realizar-se no dia-a-dia? Até que ponto irá minha fidelidade para com o que eu sou no mundo, incluindo meus objetivos, valores e ideais, para defender o que considero sagrado?

Ao termos do nosso lado um cão, sabemos o quão esses animais tem um feitio companheiro desprendido, tão puro e gentil que as vezes sentimos como se não pudêssemos retribuir tamanho amor. Realmente não podemos, já que os cães não pedem o afeto de seu dono, apenas doam o mais sincero amor que deles pode fluir. Os cães se deitam aos pés de seus companheiros humanos como se fossem guardas de um tesouro inestimável. Todavia, sabemos que essa joia preciosa é o coração de um cão, já que ele é regido pela lei onde o amor se concede sem pedir nenhuma retribuição. Há quem diga que numa próximo encarnação os cães nascerão como humanos compreensíveis, amáveis e benévolos que mudarão os rumos da história planetária. Galert defendeu o filho de Llywelyn Fawr, sem medo da morte ou do que seu senhor pensaria dele, totalmente desapegado, porque sabia o quanto amava aquele pequeno ser. Quem sabe sejam as novas gerações que estão nascendo preocupadas em cuidar da Terra como guardiões de um lar, que guiarão a humanidade para novos pensamentos e formas de ser mesmo nos tempos mais sombrios, que serão leais uns com os outros de forma a revelar o amor mais pleno.

Segue uma tradução para o poema galês Bedd Gelert (O Túmulo de Gelert), de origem provável do ano de 1833:

BEDD GELERT

Os lanceiros escutaram o som do cornetim
E alegremente a manhã sorriu
E muitas bravias cadelas, e muitos cães de caça
Obedecendo a corneta de Llywelyn Fawr.

E ainda ele assoprou o mais alto sopro
E concedeu uma alegria mais bela
“Venha, Gelert, venha, pois você é o último
A ouvir a corneta de Llywelyn Fawr.”

Oh, por onde o leal Gelert cruza
É a flor de toda a sua raça!
Tão verdadeiro, tão valente – um cordeiro em casa,
Um leão na caçada!

Estava sempre a beira de Llywelyn Fawr
O fiel Gelert robusto
Ele guardou-o, ele serviu-o, ele animou seu senhor
E a sentinela era sua cama.

De fato ele era um cão de caça inigualável
Um presente do nobre João da Inglaterra
Mas Gelert não foi encontrado,
E toda a caçada seguiu em frente.

E por através das rochas e vales,
Os nobres esbravejam e sobem,
Todo caos íngreme de Snowdonia em brado
Com muitos clamores misturados.

Naquele dia Llywely Fawr pouco amou
A caçada de cervo ou lebre
E escassa e parcamente foi provada a presa
Pois Gelert não estava lá!

Insatisfeito, Llywelyn Fawr voltou para casa
Quando próximo, atrás do portão
O faltoso Gelert ele observou
Pôs-se o seu senhor a saudá-lo.

Mas quando alcançou o portão do castelo
Horrorizado o rei ficou
O cão de caça estava manchado com sangue
De seus lábios, seus dentes, corria o sangue.

Llywelyn Fawr mirou com surpresa feroz
Não empregando tal olhar no encontro
Com seu favorito, de aparência alegre
Que agachou-se e lhe lambeu os pés.

Em seguida, com pressa, Llywelyn Fawr avançou,
Com ele também foi Gelert,
E ainda, para onde o seu olhar era lançado,
Gotas de sangue fresco impactavam sua visão.

Encontrou o berço de seu herdeiro em perturbação,
Com renda e cobertas manchadas de sangue
E ao redor, nas paredes e no chão,
Com sangue recente esguichado.

Ele chamou por seu filho – nenhuma voz respondeu –
Ele procurou com terror selvagem,
Sangue, ele encontrou sangue por todos os lados,
Mas em nenhum lugar encontrou seu filho.

“Cão de caça do Inferno! Meu filho foi devorado por ti!”
Gritou o pai em demasia frenético
E até o punho de sua espada vingativa,
Ele cravou no peito de Gelert.

Despertado pelo grito de morte de Gelert,
O dorminhoco acordou ali perto,
Que palavras de alegria o pai poderia dizer
Por ouvir o choro de uma criança.

Ocultado abaixo de um amontoado caído
Sua busca precipitada havia terminado
Brilhante era seu sono rosado
O querubim menino que ele beijou.

Não estava machucado, nenhum dano, nem medo
Mas, da mesma maneira, abaixo da cama
Deitado estava um lobo magro, despedaçado e morto,
Tremendo ainda na sua morte.

Ah, quão grande era a dor de Llywelyn Fawr!
Naquele momento, a verdade era clara
Seu galante cão de caça matara o lobo
Para salvar o herdeiro de Llywelyn Fawr!

Inútil! Inútil foi o sofrimento de Llywelyn Fawr!
“O melhor dos melhores, adeus!
O coração desvairado que te fez cair
Esse sempre se lastimará!”

E agora, uma imponente tumba se levanta,
Com uma rica escultura de beleza sem igual
E o mármore, com sua história e louvor,
Protegem os pobres ossos de Gelert.

Aqui nunca poderá passar um lanceiro,
Ou mesmo forasteiro que seja impassível.
Aqui o orvalho na grama como lágrimas
São a prova da tristeza de Llywelyn Fawr.

E aqui ele pendurou seu cornetim e lança,
E lá, quando a noite caiu,
Ele ouviu-o na audição de um sonho
Compreendendo o grito de morte do pobre Gelert.