Nawfed Pwer

"Nós somos a totalidade nove vezes."

O Conceito Druídico de Nwyfre

O conceito druídico de Nwyfre por Sencha The Druid © 2013

Postado originalmente em 8 de Setembro de 2013 no site Witch Vox, acesse aqui.

Tradução e adaptação por Llewellyn Mawr fab Blodeuwedd © 2015

 

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Obra do artista russo Andrey Shishkin

O conceito druídico de “força vital” foi incorporada na palavra Nwyfre. A palavra Nwyfre é uma palavra do Galês Médio que significa “céu” ou “vigor”. Foi geralmente utilizado para se referir a um céu tempestuoso. Iolo Morganwg1 popularizou seu uso como uma “palavra mágica”. Ele provavelmente entendeu mal a etimologia da palavra, que originalmente não tinha nenhuma conotação mística, mas Nwyfre assumiu uma vida própria (sem trocadilhos) entre os círculos druídicos contemporâneos. O caminho dos druidas modernos usa a palavra, que agora significa “força vital” ou “energia vital”. Pense em “A Força” da série de filmes Guerra nas Estrelas2, e você terá uma aproximação grosseira do que Nwyfre significa para um druida.

Para um druida, tudo está vivo, incluindo rochas, árvores, plantas, animais, e até mesmo a própria Terra. Tudo tem o potencial para gerar energia, e a totalidade da energia no universo é a própria força da vida. Este é o conceito que Morganwg estava tentando abarcar quando ele escolheu a palavra Nwyfre.

Você pode perguntar: “Como podem as rochas estarem vivas?”. A resposta é que elas contêm um potencial de força de vida, ao invés de atuar como força vital. Rochas tornam-se solo. As plantas se alimentam do solo, convertendo o seu material em energia vital. Em seguida, os animais comem as plantas e os seres humanos comem ambos, tanto as plantas, quanto os animais. Pense desta maneira: se você tomar uma pílula de vitamina com suplementos minerais, esses minerais vieram de rochas. Em que ponto do seu processo digestivo o mineral deixa de ser inanimado e tornar-se vivo por ser uma parte de você? Onde está a linha divisória entre a matéria inanimada e os seres vivos? Moléculas de DNA estão vivas? Os príons vivem? Os vírus vivem? Serão as bactérias vivas? São os organismos unicelulares vivos? Nwyfre nos ensina que todas as coisas têm potencial de vida.

Um dos mistérios mais profundos do Druidismo é que estamos todos interligados. A citação atribuída ao Chefe Seattle da Tribo Suquamish diz que somos todos parte da “Teia da Vida”, e que o que fazemos um para os outros, incluindo nossos irmãos e irmãs de quatro patas, fazemos para nós mesmos. Isso às vezes é expresso na Wicca a partir da Lei Tríplice, ou a Regra do Três: “O que você faz volta para você três vezes”.

A “magia” que os druidas falam está se referindo ao uso de Nwyfre para atingir um fim desejado. Uma das nuances do significado da palavra Nwyfre é a ideia de “Tecelagem”. Então os druidas são aqueles que evocam mudanças dentro de si “tecendo” a “força vital”. Estas mudanças internas levar a uma consciência mais elevada e uma conexão mais profunda com a natureza e com os outros.

Em ambas, na prática antiga e moderna do Druidismo, um período de aprendizado é necessário antes de tomar o caminho do druida. O Druidismo é um caminho ao longo da vida, e esse caminho requer uma vida inteira de dedicação. Tal compromisso não é uma decisão a ser tomada ligeiramente. Devido a isso, muitas ordens de Druidismo requerem um período de reflexão sobre o que significa ser um druida antes de aceitar a adesão plena de um Dedicante. A Lei Brehon (o código de leis utilizadas pela Irlanda durante o período gaélico) prescreve um período de um ano e um dia de reflexão antes de tomar muitas decisões importantes, e muitas ordens druídicas aderem a esta regra.

Esteja ciente de que se você estiver interessado em juntar a uma ordem particular, cada uma delas tem seu próprio caminho para os Dedicantes, portanto, uma ordem pode ou não aceitar o trabalho que você fez em outra para satisfazer as requisições para a iniciação. Muitas ordens druídicas, incluindo a Black Mountain Druid Order3, se utilizam da Tríade4 para dividir os nossos ensinamentos em três categorias principais. Essas categorias são o Caminho da Terra, o Caminho do Sol, e o Caminho da Lua:

Caminho da Terra: Este caminho discute como desenhar a aproximação com a natureza para cuidar da Terra e compreender como nos encaixamos na Teia da Vida, como viver de forma sustentável e ecológica, e como ser ativista para dar o retorno ao mundo natural. O fundamento básico para a seção Caminho da Terra é o alfabeto céltico das árvores conhecido como Ogham5. Ao aprender sobre o Ogham, vamos discutir as propriedades das árvores e plantas associadas com cada letra deste alfabeto. Nós também descobrir como desenvolver um relacionamento com nossas árvores de nascimento usando o Calendário das Árvores desenvolvido por Robert Graves em The White Goddess6. O Nwyfre do Caminho da Terra encontra-se em aprender a ver a força da vida em todos os seres vivos, incluindo plantas, animais, pedras, rios e paisagem viva que nos rodeia.

Caminho do Sol: Este caminho é uma análise profunda da Roda do Ano e como os druidas comemoraram os seus High Days (Altos Dias), incluindo rituais para cada Alto Dia7. O Caminho do Sol ensina a Roda do Ano como uma metáfora para nosso próprio caminho sagrado pela vida, abraçando os conceitos de equilíbrio entre a luz e a escuridão, entre o caos e a ordem. O Nwyfre do Caminho do Sol encontra-se em aprender a ver a força da vida como uma expressão do Divino, e da aprendizagem que nós mesmos somos uma expressão divina do Nwyfre.

Caminho da Lua: O caminho centra-se na jornada interior do druida. Assim como a Lua não tem luz própria, mas reflete a luz do Sol, o Caminho da Lua nos ensina a refletir o Divino dentro de nós mesmos. Incluído neste caminho são os ensinamentos sobre o xamanismo básico, como a meditação e a interpretação dos nossos sonhos. O Nwyfre do Caminho da Lua encontra-se em aprender a ver a força da vida em nós mesmos e reconhecer que não há separação entre a nossa própria força vital e o Nwyfre de todos os outros seres vivos no universo e todos os outros universos.

Uma vez que o Druidismo é um longo caminho individual, não me utilizo da ideia de que há um “caminho certo” ou um “caminho errado” de fazer as coisas. No Druidismo, o “caminho certo” é a maneira que tenha significado para você. O resto são apenas sugestões. Cada um de nós experimentamos Nwyfre de nossa própria maneira. A maneira como você busca essa experiência, que é a sua e somente sua, não poderá nunca estar “incorreta”.

 

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Notas do tradutor:

1 – Iolo Morganwg é o nome bárdico de Edward Willians, que foi um poeta e antiquário do País de Gales que viveu no final do século XVIII, compilando vários textos literários, alguns destes de cunho próprio, influenciando a cultura galesa do Eisteddfodau (festival de música e poesia bárdica) e o movimento druídico romântico.

2 – “A Força” como conceito da série cinematográfica Guerra nas Estrelas, utilizada pelo autor como exemplificação, é uma força onipresente que envolve todas as formas de vida, parte da filosofia Jedi.

3 – Black Mountain Druid Order é uma ordem druídica moderna estadunidense fundada em 1997, na Florida. Atualmente se encontra na cidade de Upstate, Carolina do Sul. Acesse a página.

4 – Muitas ordens ou clareiras modernas de druidismo tem o costume de dividir os caminhos de dedicação e treinamento druídico em Bardo, Ovate e Druida. Isso pode ser interpretado de maneiras diferentes por cada grupo. Ainda podemos citar a tríade que estabelece os deveres de um druida: “Curar a si mesmo; Curar a comunidade; Curar a Terra”.

5 – Ogham é o antigo alfabeto Irlandês, do qual suas letras têm associações com plantas da paisagem europeia céltica, como a Bétula, o Carvalho e o Pinheiro. Muitos druidas modernos utilizam-se em seus estudos e práticas do Ogham para métodos divinatórios, calendários rituais, feitiços, selos mágicos, dentre outras funções religiosas

6 – Em português: Robert Graves, A Deusa Branca. Ed. Berthrand Brasil, 2003.

7 – O que o autor chama de High Days ou Altos Dias podem ser identificados como as datas dos rituais sazonais druídicos: Equinócio de outono e de primavera, Solstício de inverno e de verão (Festivais Maiores?), Samhain, Imbolc, Beltane, Lughnasadh (Festivais Menores?). Dependendo do foco mítico, histórico e regional do grupo, os nomes e as formas de prática tradicional podem mudar.