Nawfed Pwer

"Nós somos a totalidade nove vezes."

Por trás do Nonagrama

 

“As imagens, os símbolos e os mitos não são criações irresponsáveis da psique; elas respondem a uma necessidade e preenchem uma função: revelar as mais secretas modalidades do ser.”

(Mircea Eliade, 1991)

 

Discutir a escolha de um símbolo para representar uma linha filosófica espiritual não é uma tarefa fácil. Mas muitos dos símbolos surgem dos sonhos e do inconsciente humano, ou seja, onde à espera da descoberta está o modo autônomo de conhecimento. E foi assim que o Nonagrama se apresentou como uma força genérica para ser a imagem irradiadora da Nawfed Pwer, as nove potencialidades míticas do ser numa estrela de nove pontas.

A numerologia do 9 foi escolhida não por acaso. Este número aparece em diversas ocasiões como simbolismo mágico-religioso entre as populações célticas. Além disso, na Numerologia representa os fins e os começos, tendo uma profunda ligação com a eternidade, com o tempo dos deuses e a voz da grande canção das origens. O 3 X 3, que denota que a criação está plena e perfeita, o retorno a fonte onde tudo renasce, a vida em maravilhosa transformação.

Há mitos e histórias sagradas célticas que fundamentam nossa escolha e hierofania. A mais expressiva se encontra no Quarto Ramo do Mabinogion e conta a história de Blodeuwedd, uma deusa que foi criada através de “Nove Poderes de Nove Flores”. Cada um dos brotos que criaram essa deidade galesa representa uma qualidade do ser humano completo. Os vínculos criados a partir do culto e do estudo dessas representações florais nônuplas trazem para nós a essência do nosso eu interno e íntimo: Prímula, Giesta, Rainha dos Prados, Joio, Faveiro, Urtiga, Carvalho, Espinheiro, Castanheiro.

O mito irlandês das Nove Aveleiras de Buan é outro exemplo que nos interessa meditar. Essas nove árvores frondosas e belas que davam avelãs de doce sem igual foram avistadas pelo rei Cormac. Elas circundavam entrelaçadas uma grande fonte de límpida água, um reservatório de virtudes e possibilidades. Nesse local de encanto, as nove aveleiras davam de comer aos salmões suas avelãs e assim, se alimentando da carne do Salmão do Conhecimento os poetas encontravam a Imbas ou Awen, a inspiração das musas.

Falando nelas, as musas também são organizadas em nove no mundo grego e representam cada uma as diversas artes ou dons, dos quais os homens escolhidos por elas, Aedos, podem aprender a construir suas odes, epopeias e poesias. Devia existir uma versão desses nove arquétipos femininos entre os povos célticos, já que podemos constatar isso no que Taliesin canta neste trecho de Preiddeu Annwfn (Os Espólios de Annwn), um poema do século XIV, que conta a história de Arthur levando seus guerreiros ao Outro Mundo:

 

13. Yg kynneir or peir
   pan leferit.
14. Oanadyl naw morwyn
   gochyneuit.
15. Neu peir pen annwfyn
   pwy y vynut.
16. Gwrym am yoror

   amererit.

17. Ny beirw bwyt llwfyr 
ny rytyghit.

“Minha poesia, do caldeirão, foi proferida. A partir do sopro de nove donzelas, foi acesa. O caldeirão do chefe de Annwfn: Qual sua aparência? Uma crista escura em torno da sua borda e pérolas. Não faz ferver o alimento de um covarde; não foi assim destinado.”

 

O símbolo da Awen/Imbas, a inspiração divina no druidismo.

São muitas vezes citadas em mitos ou túmulos que existem Nove Ondas que quebram no mar antes do mundo dos ancestrais, anteriores ao paraíso da Terra das Maçãs, um caminho para as planícies doces. Essas ondas do mar também nos transmitem a visão de limites tênues entre os mundos daqui e de lá, trazendo novamente o 9 para seu lugar de totalidade e plenitude espiritual. O movimento das águas do profundo e turbulento oceano nos lembra de nossa pequenez e humildade, como também nosso encontro com as origens ancestrais no decorrer da vida.

Podemos citar também os Nove Círculos do Inferno de Dante Alighieri, que viveu na Europa medieval e criou o olhar sobre o Inferno, ou seja, o nosso lado mais obscuro e profundo, através da sua obra A Divina Comédia. Mas por que tomar Dante como uma inspiração? Ora, além de ser uma das obras mais clássicas do mundo ocidental, Dante faz uma interlocução buscando conhecimento com o poeta Virgílio que nasceu na Gália Cisalpina, do qual alguns defendem que teve sua eloquência nas paisagens e costumes dos povos célticos para escrever e se tornar um dos maiores autores romanos. Se poesia é um dos pilares do mundo celta, não duvido nada!

Outra importante coluna para nossa base do Nonagrama é uma filosofia irmã, que proveio dos monges Sufi do Oriente: o Eneagrama. Uma chave poderosa para construir um olhar mais amplo e completo da nossa humanidade, tendo como ponto fundamental Nove Personalidades com suas qualidades e egos. Essas personalidades ou modalidades do ser são chaves muito relevantes para o autoconhecimento e não tenho dúvida que os mestres Sufi e os Druidas podem entrar em um diálogo amistoso através do intermédio e da prática da Nawfed Pwer.

As Nove Virtudes da ADF compiladas por Michael J. Dangler, podem também ser aqui invocadas: Sabedoria, Devoção, Visão, Coragem, Integridade, Perseverança, Hospitalidade, Moderação, Fertilidade. Ou então os Nove Valores que encontrei também em textos da OBOD: Responsabilidade, Autoconhecimento, Confiança, Integridade, Coragem, Consciência, Generosidade, Amizade, Honra. Essas poucas palavras, porém de enorme significado, referenciam a vida dos druidas modernos e representam nossa conexão sagrada com o número 9.

Por que associar tantos conhecimentos e estudos diferentes em um símbolo? A resposta é encontrar o Centro, Eixo ou Rédea que dê razão e sentido para os nossos sonhos. Para Mircea Eliade os símbolos revelam aspectos e conhecimentos da realidade, permitem conhecer o homem simplesmente e reintegra-lo ao seu eu consciente através de seu significado. Os mitos célticos, os conhecimentos filosóficos, as construções coletivas como a literatura, as imagens associadas às tradições e a espiritualidade nelas contidas são unificadas em um símbolo para representar Nove Potências que podem e devem começar a despertar na humanidade um pedaço perdido do manuscrito que agora está se fazendo reapresentado.

 

Nove poderes da criação
Nove ondas antes do paraíso
Nove flores belas e brancas
Nove círculos do inferno
Nove dos seus semblantes
Nove máscaras dos egos
Nove de nossas personalidades
Nove virtudes escondidas
Nove forças e potências
Nós somos a totalidade nove vezes

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Referências bibliográficas:

DANTE, Alighieri. A Divina Comédia. Tradução: Fábio M. Alberti. – São Paulo: Editora Nova Cultural Ltda., 2003.

ELIADE, Mircea. Imagens e Símbolos: ensaio sobre o simbolismo mágico-religioso. – São Paulo: Martins Fontes, 1991.

GRAVES, Robert. A Deusa Branca: uma gramática histórica do mito poético. – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

GANTZ, Jeffrey. The Mabinogion. – Londres: Penguin Books, 1976.

MOOREY, Teresa. A Bíblia da Numerologia. Tradução: Carmen Fisher. – São Paulo: Pensamento, 2012.

PALMER, Helen. O Eneagrama de Bolso. – São Paulo: Paulinas, 1999.

SKENE, William F. The Four Ancient Books of Wales. – USA: Forgotten Books, 2007.

 

Nove Virtudes da ADF (PDF)

Nove Valores OBOD (Link)