Nawfed Pwer

"Nós somos a totalidade nove vezes."

Um olhar sobre o Apadrinhamento Espiritual

Costumes Irlandeses, século XVI.

Neste ensaio pretendo lançar-me a um tema que causa momentos de reflexão e do qual encontramos pouco material escrito no olhar druídico: o apadrinhamento espiritual. Isso tem partido de experiências pessoais com divindades, que tem trazido à tona a curiosidade. A questão já é mais clara em outras tradições espirituais, onde divindades regem a vida de um protegido humano. Para isso recorri a alguns textos e mitos que expressam a prática do Fosterage (acolhimento), um tipo diferente de adoção praticado e registrado nos quatro cantos do mundo celta. Nesse sentido, quero pensar histórica e culturalmente como se dava essa ideia no mundo céltico, incluindo os exemplos míticos. Logo, o cerne da discussão é como no caminho druídico atual podemos considerar e definir a hierofania da presença essencial/ancestral de deuses e deusas que irradiam sua influência em nosso caminho espiritual como padrinhos e madrinhas. Deixo então uma contribuição.

Encontramos diferentes traduções para Fosterage, como “lactação”, “adoção”, “acolhimento” ou “fomento”. Parece que a origem da palavra está relacionada à nutrição de algo por outra coisa que não seja a sua matriz original. Por estar relacionada à lactação, ou seja, a amamentação, lembra a profissão das amas de leite, mulheres dedicadas a amamentar bebês quando a mãe está impossibilitada para isso. Também está ligada a ideia de patrocínio, uma relação de amparo, auxílio e proteção material e/ou afetiva. Isso quer dizer que Fosterage informa em sua raiz uma consciência diferente de Adoption, que por sua vez denota aceitação de alguém como filho legítimo, e não como apenas um apadrinhado.

Historicamente, a prática foi registrada em diversas populações pelo globo. Nas populações celtas, encontramos exemplos entre os irlandeses, galeses, escoceses e gauleses, do qual podemos afirmar que possivelmente esse era um costume pan-céltico. Em resumo, a prática do Fosterage entre os celtas consistia na tutela de uma criança por uma família de acolhimento, porém os pais originais continuam a ser reconhecidos. Os relatos de costumes de apadrinhamento de crianças e jovens por tutores, faz alguns historiadores inclusive afirmarem que o costume ocidental de uma criança ter padrinhos de nascença ou batismo, seus “segundos pais”, pode ser uma herança cultural céltica e indo-europeia.

Na Irlanda pré-cristã e medieval, segundo Cindy Thomson, o acolhimento era comum e imbuído na vida e práxis social.  A autora comenta que dos nobres a pessoas menos abastadas, grande parte das pessoas tinha o hábito de enviar seus filhos para um clã vizinho no intuito de serem criados por outra família. Isso mantinha as relações de paz entre os diferentes clãs, já que “se você enviou seu filho para viver com uma tribo vizinha, é provável que você não ataque e vice-versa”, além de manter lealdade como benefícios em momentos de batalhas com inimigos.

De acordo com Cindy Thomson, muitas vezes pagamentos estavam envolvidos nesse processo. A família de acolhimento aceitava ter a criança e ensiná-la mediante provento e havia até contratos e legislações, onde prescreviam multas caso a qualidade do acolhimento se tornasse inadequada. No que se refere às técnicas ensinadas pela família de acolhimento, “as meninas eram ensinadas habilidades domésticas como tecelagem e cuidar de animais. Os meninos foram ensinados a usar a estufa, cortar madeira e arrebanhar animais. Se a criança era de um status social mais elevado, eram instruídas atividades tão nobres como jogos de tabuleiro e bordados”. Entre os 14 e 17 anos, as crianças voltavam aos seus lares originais, mas pela consideração que surgia dessa relação, os jovens adotados se tornavam responsáveis pelos seus pais adotivos na velhice e se caso viessem a morrer cedo, os pais adotivos tinham direitos a prestar votos de homenagem igual à família de nascimento.

 

“O acolhimento ajudou a moldar a criança medieval, e seu caráter duradouro que viveu o longo período do medievo.  As origens desta instituição residem na sociedade indo-europeia (3000-2000 a.C.), cujos vestígios linguísticos ainda permanecem. Sugeriu-se que o acolhimento na época romana foi o resultado de um tabu que proibia o pai de ver seus filhos até atingir uma certa idade. Se isso emana dos tempos indo-europeus, se é correto, só podemos especular. O que se sabe com certeza é que, quando a Irlanda surge no período histórico (século V d.C.), a criação de filhos adotivos é uma tradição bem estabelecida na sociedade.”

(Bronagh Ní Chonaill)

 

Quanto às legislações que asseguravam direitos da família de nascimento e da criança em ser educada com qualidade, encontram-se as Leis Brehon da Irlanda. Segundo Laurence Ginnell, essas leis estabeleciam vários tipos de acolhimento, como regras minuciosas para ambas as partes, a idade mínima para ocorrer o acordo, idade de retorno ao lar, o modo de tratar a criança, o pagamento e as relações da criança e dos pais adotivos, antes e depois. A família de acolhimento estava sujeita a diversas penas, como responder por qualquer dano ou ferimento a criança com indenizações a família de nascença. Havia também na Irlanda, uma modalidade peculiar: as crianças eram adotadas por Ollamhs, espécies de poetas e professores, que as ensinavam a literatura e conhecimentos tradicionais em troca de pagamentos e favores das famílias.

 

“O acolhimento foi muito comum. Em suma, isso significava que uma criança, menino ou menina, passaria parte de sua infância na família de outro clã, aprendendo um ofício, como lutar ou governar (dependendo de sua classe). A criança poderia ser enviada para a família adotiva em qualquer momento, uma vez que ele atingisse um ano de idade. A criança retornaria à sua família de nascimento quando atingisse a idade de casar (14 para meninas, 17 para meninos). Esta situação não só ajudou a educar os filhos para seus papéis futuros na sociedade, fortalecendo vínculos entre famílias e tribos. Durante o tempo em que a criança era acolhida, a família adotiva era responsável por sua educação (enfrentando fortes penalidades se não fosse transmitida bem) e era responsável por qualquer dano ou ferimento para a criança.”

(Nicole Evelina)

 

Por outro lado, no País de Gales encontraremos poucas referências sobre a prática do acolhimento, principalmente quando se trata de legislações, como vimos anteriormente na Irlanda. As primeiras fontes datam do século XII e referencia a prática a influência política e a um parentesco artificial. Contudo, pode-se apontar até sobrevivências na semântica galesa, do qual a palavra aillt, que significa “alguém acolhido”, e cyfaill que denota “amizade”, deu origem a palavra cyfaillt, que quer dizer “alguém criado junto a outra pessoa”. Nesse sentido podemos dizer também que na sociedade galesa o acolhimento se assemelha muito com o que vimos até aqui.

Contudo, o que aparenta é que boa parte dos textos legislativos medievais galeses tenderam a focar na repartição de terras e heranças através da prática do acolhimento. Segundo T. M. Charles-Edwards, as leis galesas dispõe de alguns poucos vislumbres sobre o assunto, como a autorização da adoção de filhos de nobres e os direitos destes na divisão de herança com os filhos da família acolhedora. De acordo também com Bronagh Ni Chonaill, “Uma diferença importante entre a tradição medieval irlandesa e galesa foi a possibilidade de herança de terras através de relações de acolhimento no País de Gales medieval”. Isso quer dizer que os interesses jurídicos convertiam-se a garantir a prosperidade para ambas às famílias envolvidas, com punições em caso de danos e não cumprimento.

“A dream of the past: Sir Isumbras at the Ford”, de John Everett Millais.

A maior parte dos registros sobre acolhimento no País de Gales encontram-se em sua literatura tradicional, principalmente nas histórias do Mabionogion e do Historia Brittonum. Não nos deixemos cegar pela ideia de que tratam-se de contos ou mitos e atentemo-nos a significação que essas histórias tradicionais podem trazer a discussão histórica.

No quarto Ramo do Mabinogion, encontramos Llew que é adotado por Gwydion ao nascer e ser aparentemente abandonado por sua mãe Arianrhod. O campeão Gwydion sacrifica boa parte de seu tempo no conto para educar e proteger Llew, dar-lhe um nome (pregando uma peça em Arianrhod), até mesmo criar uma esposa das flores para seu apadrinhado. Fica bem claro na história que Gwydion alimentava afeto a Llew como se fosse seu filho, embora soubesse que não era. Outro exemplo está no primeiro Ramo e reside em Pryderi, filho de Pwyll e Rhiannon. Este fora encontrado por Teirnon e sua esposa, após ser raptado por um tipo de monstro do Outro Mundo. Por conta do sumiço de Pryderi, Rhiannon sofreu punições por ter sido acusada por suas criadas de ter devorado o próprio filho. Teirnon ao saber da história da rainha, levou Pryderi ao palácio de Alberth, que fora reconhecido por toda corte e por sua mãe. Como gratidão pelo acolhimento de Pryderi, foram várias as recompensas de Pwyll e Rhiannon aos pais adotivos, sendo Teirnon e sua esposa nomeados padrinhos do príncipe de Dyfed.

Não nos esqueçamos de uma personagem clássica do mundo ocidental e que também se origina nas terras de Cymru: o rei Arthur. Embora saibamos que o Merlin dos contos Arthurianos seja diverso e multifacetado, parece que sua relação de educador e guia/conselheiro de Arthur nos rememore mais uma vez a prática do acolhimento. Além disso, podemos correlacionar os diferentes contos de fadas que nos chegaram através de livros infantis ou análises mitológicas. As fadas madrinhas são proeminentes em contos, onde uma figura feminina dada a conhecimentos mágicos adota um protegido para lhe dar suporte, representados pela realização de pedidos durante a sua vida. É comum também que a criança escolhida pela fada-madrinha seja abençoada (ou amaldiçoada) por esta quando nascem.

Nas Terras Altas, entre os escoceses, podemos encontrar também muitos exemplos históricos da prática do acolhimento. Para Alexia Grosjean e Steve Murdoch, o acolhimento escocês de crianças por outras famílias era semelhante às práticas gaélicas e galesas, sendo que fazia parte do modo de pensar Gáidhealtachd. As crianças deixavam suas famílias de nascença aos quatro anos e se estabeleciam no lar adotivo por pelo menos sete anos. Segundo os autores, a função principal dessa prática entre os escoceses era o fomento de alianças fortes entre os clãs através da lealdade entre as famílias. E muitos estudos apontam que a lealdade da criança a família adotiva superava a que depositavam em seus pais de sangue.

Além disso, a proximidade de laços entre clãs escoceses fora importante em tempos de conflitos bélicos. Essa prática reforçava tanto os vínculos parentescos, que possibilitava o apoio mútuo estrutural entre famílias diferentes em guerras e momentos de dificuldade e escassez. Um exemplo interessante ocorreu na batalha de Iverkeithing em 1651, quando o oitavo irmão adotivo de Sir Hector Maclean Duart foi reconhecido e homenageado pela família ao morrer defendendo seu coronel e parente em campo.

O historiador francês Serge Lewuillon afirma que no cenário educacional das crianças gaulesas, assim como dos celtas insulares, havia características que podem ser compreendidas como a prática do acolhimento. O exemplo histórico de Vercingetorix, o chefe gaulês que desafiou o poderio bélico romano de Júlio César, pode ser citado aqui, embora isso seja questionado. Isso porque temos poucas fontes para reconstruir a juventude desse líder militar gaulês, o que é o caso de quase toda personagem histórica céltica. André Simon cita os estudos de Jean Markale, que traçam o jovem Vercingetorix como alguém que fora tirado do lar entre os dezoito meses ou três anos e levado para ser criado por um amigo da família. Alguns acreditam que fora um druida e que o jovem chefe dos gauleses foi também feito um. Para André Simon não há tantas informações para sustentar isso, embora Júlio César afirmasse que os jovens da nobreza gaulesa eram levados a ter a educação druídica longe de seus lares originais.

Sendo assim, essas fontes históricas e tradicionais nos comunicam que havia um tipo de tutela muito específica para cada região do mundo celta, mas que o Fosterage era comumente praticado. A instituição do acolhimento ou apadrinhamento na sociedade celta, pelo que tudo indica em estudos históricos, arqueológicos e antropológicos, tinha a função de fortalecer as relações sociais, através dos laços de confiança entre famílias e alianças econômicas e estratégicas. Isso mantinha certa unidade dentro das constituições tribais célticas, o que era um grande esforço em uma sociedade que historicamente não conseguiu êxito em unificar-se em sua política. Ao construir essas ligações familiares, entregando seus próprios filhos para serem educados por outrem, os celtas de alguma forma deram três lições pouco compreendidas no mundo atual: a empatia, a reverência e a devoção.

Tendo isso em vista, encaminhamo-nos direto ao assunto: o apadrinhamento espiritual no Druidismo Moderno. Olhando para a cultura e história dos celtas, a consciência presente na instituição do acolhimento e tomando aspectos da prática druida atual, vamos tentar traçar uma ideia. Lembrando que esta ideia já é encontrada em diversas tradições. As divindades são conhecidas como pessoais, padroeiros (as), espíritos protetores e totêmicos, deuses domésticos (lares/familiares), guia ou guardião do caminho, pais espirituais ou mesmo padrinhos/madrinhas. São comumente caracterizados como seres divinos que protegem e regem a vida de seus tutelados.

Boa parte dos caminhos espirituais segue essa regra, cada qual com seus costumes inseridos em suas práticas. Não pretendo estender sobre como isso se caracteriza em cada uma, já que não é a questão central. Porém caso você queira se aprofundar sobre outras tradições poderá começar a pesquisar sobre os Lares entre os romanos do mundo clássico, a regência dos Orixás nas religiões de matriz africana, os Entes Totêmicos em tradições xamânicas indígenas, dentre outras possibilidades. No mais, gostaria de expor uma visão para isso em relação às crenças inseridas no Druidismo Moderno

Vamos partir da ideia que os nossos deuses, os deuses celtas, não são tão distantes de nós como está presente na visão ocidental judaico-cristã. Cito isso, já que boa parte de nós foi educado em uma cultura onde o cristianismo predomina, mas precisamos transpor esse olhar. Nas histórias sagradas celtas, os deuses aparecem bebendo e festejando, celebrando o sexo com seus parceiros, trabalhando em ofícios, e até lutando uns contra os outros e causando discórdia.  Isso quer dizer que os deuses e deusas dos mitos celtas sentem e praticam na pele como os humanos a dor, o prazer, o ódio, o afeto, a inveja, a generosidade, entre outros.

Isso também quer dizer que deuses no Druidismo Moderno, ou melhor, a divindade céltica, está na humanidade, na natureza, no universo e em tudo que nos constitui. Nós somos a manifestação do divino em todos seus aspectos e potenciais: tanto nos vícios, quanto na capacidade de transpô-los com virtudes. Outra questão, é que os deuses celtas são cheios de conhecimentos e habilidades que desejam ensinar aos humanos. Poesia, arte da guerra, metalurgia, cura, etiqueta, magia, iniciação, soberania, entre outras formas de conhecimentos e valores que são expressos nessas histórias sagradas.

Se as forças divinas sentem como nós e tem conhecimentos e habilidades a nos acrescentar, isso quer dizer que essas divindades se comportam como nossos mestres ou professores, e assim, como nossos “segundos pais”, podendo nos apadrinhar ou acolher no plano sutil e estabelecer relações espirituais conosco, nos educando como faziam os pais adotivos das crianças no mundo celta. E assim podem agir como padrinhos/madrinhas, deuses tutelares, deuses de acolhimento. Pelo que percebemos em fontes, mitos e práticas, isso pode ocorrer de diferentes formas: I – A divindade se manifesta durante a vida do noviço, II – O noviço é batizado em nome da divindade pelos pais humanos, III – Por intermédio de sacerdotes, o noviço é iniciado no caminho da divindade e IV – O noviço pode pedir o auxílio da divindade, que pode o apadrinhar mais tarde.

“Merlin taking away the infant Arthur”, de N.C. Wyeth.

Todos nós temos potenciais, logo, de início, basta encontrarmos o deus ou deusa que tenha afinidade para tal potência humana. Lugh, o senhor de todas as habilidades, pode ajudar seus apadrinhados a lidar com profissões tão diferentes quanto se imagina. Brigit pode ser madrinha pessoas dedicadas às artes, a poesia, a música e a medicina. Manannan realiza tutela dos navegadores, dos viajantes, os que caminham entre os mundos. Gwydion apadrinha aqueles que querem descobrir quem eles são. Brawen lembra dos justos, tentando sempre harmonizar seus irmãos. Ao encontrar a habilidade que a divindade ou a família espiritual expressa através dos seus arquétipos míticos, encontramos um sentimento peculiar: a possibilidade de acolhimento.

Nesse sentido, acredito que no Druidismo Moderno se estabeleça uma relação de acolhimento ou apadrinhamento espiritual com os deuses e deusas do caminho. Assim como na consciência original expressa na prática histórica de famílias de acolhimento, de que uma criança é enviada ainda muito pequena para ser ensinada em ofícios e profissões por pais adotivos, tenho para mim que a relação é semelhante com a divindade.  Ainda mais quando compreendemos que muitas das manifestações sociais celtas estão imbuídas de alguma maneira em valores de tradições passadas de geração em geração pelos druidas, e o acolhimento não deve fugir a isso.

Se a função do acolhimento era fazer ligações entre clãs e famílias para estabelecer paz, lealdade e transições estratégicas, e do ponto de vista religioso o homem tende a religar-se com o sagrado, essa pode ser a chave para a compreendermos como um druida moderno pode realiza-lo. Principalmente se pensarmos que uma das funções do druida é manter a paz e a harmonia entre os mundos, o acolhimento de padrinhos e madrinhas espirituais é uma forma de buscar a sabedoria dos deuses através de meditações e viagens xamânicas para responder nossas dúvidas pessoais e mesmo da comunidade.

Essa tutela divina tem suas leis a serem obedecidas por ambos os lados. O acolhimento é um consentimento, onde se compreende uma relação mutua entre humanos (crianças) e divindades (família de acolhimento), mediadas por pagamentos e votos de lealdade e afeto. Como nós humanos tomamos o papel de crianças, devemos estar abertos aos ensinamentos de ofícios e habilidades da divindade ou família divina tutelar, assim como esses nos correspondem com seus sinais particulares e hierofanias. Os pagamentos são as oferendas, prendas e sacrifícios dados em honra ao nome da divindade ou da família espiritual. Devotar lealdade e afeto ao culto desses deuses é dever, já que estes são nossos protetores e nos darão suporte e auxílio no caminho druídico.

Mas assim como as crianças tem seus deveres, a família acolhedora tem os seus também. Os deuses tutelares correspondem através de manifestações divinas, sonhos e meditações, contatos sutis, conhecimentos apresentados em histórias tradicionais, aprendizado de ofícios, abertura de dons espirituais, aprimoramento moral, insights, etc.. Lembrando que a educação adequada será dada de acordo com o status da criança: desde afazeres básicos à nobres profissões. Ou seja, assim como a instrução dependia da origem da criança, podemos refletir que o ensinamento da divindade dependerá do nosso nivelamento espiritual (nem mais e nem menos). Se o humano tem status para um poeta, as divindades da eloquência estarão ao seu redor. Embora seja clichê, isso lembra a citação “quando o discípulo está pronto o mestre aparece”.

Se reconhecermos a divindade que há dentro dos humanos, compreendemos que nossos pais no plano material são aqueles que escolhemos para nascer e vir ao mundo. Estes nos dão as condições de vida e a proteção terrena. Mas temos outras necessidades, sendo que estas são no plano espiritual: é então que somos acolhidos por divindades. “Para quê?” você deve perguntar. No intuito de aprendermos, experimentarmos, movermo-nos entre os mundos, ter fé. Afinal, para os druidas a vida não se resume a essa existência. Em determinado momento da vida,  nossos pais terrenos entregam-nos a pais espirituais, para curarmos a nós mesmos. Esse “tempo” dependerá de cada um. Há crianças que crescem rápido, mas outras demoram um pouco mais. Após o aprendizado, nossos pais espirituais nos devolvem ao plano terreno para que trabalhemos em prol da comunidade e da Terra. No fim das contas, herdamos a Terra e o Outro Mundo. E a harmonia entre ambos os mundos é o sonho druida.

Há ainda nesse contato uma forma de “herança” a ser discutida. Quando as crianças estão prontas, a família acolhedora os leva de volta ao lar dos pais sanguíneos. Todavia, os pais de acolhimento continuam a ser reconhecidos e às vezes com mais prestígio. Isso chega ao ponto da família de acolhimento conceder heranças ao filho adotivo. Ou seja, do ponto de vista espiritual, os humanos protegidos por divindades pretendem também herdar uma “terra além mundo”, onde esses seres divinos moram. Podemos citar as ilhas das maçãs, planícies, terras ao oeste, e os diversos “Outros Mundos” no olhar céltico. Á partir das leituras até aqui, então fica compreendido que podemos fazer uma correlação entre a prática histórico-cultural do Fosterage entre os celtas com a manifestação do divino em nossas vidas através de entidades madrinhas.

Finalizando nossa reflexão, penso que ao renascer no mundo terreno somos convidados a encontrar a criança que está pronta para aprender, crescer, ser nutrida, se tornar madura, altiva e sábia sem perder o sorriso, trabalhando para o melhoramento da Terra e dos que vivem nesse planeta. E quando falo em crianças não estou falando em idade e sim em espírito. Algumas delas chegam prontas, outras demoram um pouco mais para despertar. Para isso precisamos da ajuda de duas linhas: os nossos ancestrais terrenos e a família espiritual. Entrar em contato com esses dois veios do rio, onde fluem as forças ancestrais, nos possibilitará reencontrar nosso propósito. Com empatia, reverência e devoção a Eles e Elas podemos encontrar nosso eu interior, curando a criança dentro de nós.

Não é interessante perceber-se como uma criança sedenta por nutrição do conhecimento, transpondo essa dureza e frieza do mundo atual? Pense em Fionn Mac Cumhaill, que provou do Salmão do Conhecimento ainda menino e se tornou herói prodígio. Ou então em Taliesin, que também menino tomou as três gotas do conhecimento do caldeirão de Cerridwen e se transformou em um lendário bardo.

por Llewellyn Mawr fab Blodeuwedd

 

Referências:

 

CHARLES-EDWARDS, T. M.. Wales and Britons, 350-1064. Reino Unido: Oxford University Press, 2013.

CHONAILL, Bronagh Ní. Fosterage: child-rearing in medieval Ireland. Acesse aqui.

EVELINA, Nicole. Children in Celtic Law. Acesse aqui.

GANTZ, Jeffrey. The Mabinogion. Londres: Penguin Books, 1976.

GINELL, Laurence. The Brehon Laws. 1894. Acesse aqui.

GROSJEAN, Alexia & MURDOCH, Steve. Alexander Leslie and the Scottish Generals of the Thirty Years’ War, 1618 – 1648. Nova Iorque: Routledge, 2016.

KOCH, John T. & MINARD, Antone (Editores). The Celts: history, life and culture. Volume 1. Vários autores. Santa Barbara/Califórnia: ABC-Clio, 2012.

LEWUILLON, Serge. Vercingétorix ou le mirage d’Alesia. Paris: Éditions Complexe, 1999.

MURDOCH, Steve. Network North: Scottish kin, commercial and covert associations in Northern Europe, 1603 – 1746. Boston: Brill, 2006.

SIMON, André. Vercingétorix, héros républicain. Paris: Editions Frédérique, 2015.

THOMSON, Cindy. Raise Children: the path to peace in early Ireland. Acesse aqui.